Mais médicos

Alguns esclarecimentos, vindos daqui, de quem trabalhou e supervisionou aproximadamente 20 médicos cubanos desde 2015, no Vale do Javari (alto Solimões), no alto rio negro e em Roraima… Atendendo aldeias indígenas (Marubo, Mati, Kanamari, Baré, Baniwa, Tucano, Hupda, ingaricó, wapixana, yanomami, macuxi… só pra citar algumas etnias) que antes não contavam com médico:

1. Nenhum médico foi obrigado a vir. Todos estavam muito contentes em servir, numa missão internacionalista, levando saúde aos povos. Inclusive, os médicos do qual fui professor em Cuba (módulos de preparação antes de virem ao Brasil, sobre SUS, epidemiologia brasileira, enfim…), Constantemente me procuravam no Facebook querendo saber se eu sabia quando que o governo brasileiro iria chamar a próxima leva de médicos. Ficavam realmente ansiosos para vir. Viam como uma grande oportunidade profissional e financeira.

2. 3 mil reais por mês no contexto cubano é muito dinheiro (1 kg de arroz em Cuba custa o equivalente a 0,08 reais, sim, 8 centavos). Além disso recebiam auxílio moradia e alimentação dos municípios os distritos indígenas…

3. O restante do dinheiro pago pelo governo brasileiro ia para cuba, investido na formação de mais médicos que são enviados para missões no mundo todo (é o país que mais exporta médicos no mundo – alguns países exportam armas, outro nióbio, outros médicos…). Esse dinheiro é investido em saúde e educação de qualidade, grátis. Lembrando que a maioria dos países que recebem médicos cubanos, recebem sem custo. Quem paga é o governo cubano. Esse foi o caso no Haiti, no Congo, no Nepal, Angola e Paquistão…

4. Esses médicos ficavam 3 anos trabalhando nas aldeias. Vínculo e longitudinalidade recordes. Eu que sou um médico que curte estar no mato, dormindo em rede, sem wi-fi, não fiquei mais que um ano como médico de área indígena. Quis voltar a Floripa, pelos meus hábitos e maneiras.

5. Esses dias agora nas aldeias indígenas na terra indígena raposa da serra do Sol. Vi médicos cubanos chorando pelo fim do programa. Vi equipes de saúde emocionadas por nunca antes terem trabalhado com um médico tão compromissado e humilde. Vi médicos chorando de tristeza pelo povo que atendiam.
Eu vi e vivi isso. Estava em área indígena com um médico cubano, quase fronteira com Guiana quando recebemos a noticia do rompimento de Cuba. Lamentamos, choramos juntos.

Eu estava sentado e cabisbaixo. Quando o médico cubano, Miguel, toca meu ombro, sorri, e diz: “ei, doutor, vamos lá colega, não desanima, tem uma paciente gestante esperando, há trabalho agora. Levanta.”

Então: vontade de mandar tomar no monossílabo quem diz que eram escravos. Quem vem com cinismo classista e coorporarivista, falar do alto da distância e da indiferença, da ignorância das realidades dos rincões desse país, desse povo e das nações indígenas.

🌺: Henrique Schlossmacher Passos.

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CQC A Verdade Sobre os Mais Médicos

Texto postado por Fabiano Tomáz

Pequeno guia sobre o Mais Médicos:

Ponto 1 – O Programa Mais Médicos  (PMM) não é um programa de contratação de médicos. É um programa global de fortalecimento da atenção básica no país e, para isso, conta com três eixos: infraestrutura (requalificação das unidades básicas para que tenham a estrutura necessária para o atendimento); readequação e expansão da formação médica (revisão dos currículos das universidades visando focar na medicina preventiva e não curativa, além de ampliar e descentralizar a oferta de vagas em cursos de medicina, prioritariamente pela rede pública) e, finalmente, o provimento emergencial de médicos (ou seja, “contratação” de médicos).

Ponto 2 – Os médicos do programa, todos eles, saem, depois de dois anos, com um título de especialização. Assim sendo, o médico do PMM não tem vínculo empregatício, pois integra um programa de formação em serviço. Logo, não faz sentido falar em CLT.

Ponto 3 – Os médicos cubanos atuam, em sua maioria, em locais em que brasileiros não querem atuar. Quando as vagas do programa são abertas, os primeiros a serem chamados nos editais são os médicos brasileiros formados no Brasil (com CRM); depois, os chamados intercambistas individuais, médicos brasileiros formados no exterior (importante notar aqui que são médicos que não têm CRM. Logo, não passaram pelo revalida que o presidente eleito quer forçar os cubanos a passarem). Só em caso de não preenchimento das vagas anteriores é que os médicos cooperados (no caso, os cubanos) são convocados.

Ponto 4 – Os médicos estrangeiros chegam não apenas para ocupar vagas que os brasileiros não querem ocupar (o que também é verdade), mas porque a formação médica atual não consegue atender à demanda de médicos no país.

Ponto 5 – A formação cubana em saúde é referência no mundo. Durante o governo Obama até os EUA tinham desenvolvido parcerias na área. A ELAM, escola de medicina da ilha, forma profissionais do mundo inteiro, incluindo brasileiros. Ainda assim, quando chegam ao Brasil, os médicos passam por um período de acolhimento, no qual são capacitados sobre o funcionamento do SUS, temas de saúde e português. Ao final desse período ainda passam por uma prova de admissão final. Logo, a revalidação demandada é surreal.

Ponto 6 (e talvez um dos mais importantes) – Os termos da cooperação são pactuados entre a Organização Pan-Americana da Saúde e o Ministério da Saúde de Cuba. Ninguém é “escravo” ou “obrigado a trabalhar” no Brasil. Os médicos recrutados são, em sua maioria, profissionais que já tiveram atuação humanitária em diversos países do mundo (como a crise do ebola na África ou países centro-americanos. Cerca de 25mil profissionais atuam fora do país atualmente.

De nada.
(Lara Stahlberg, eu mesma, Mestre em Brasil em Perspectiva Global pelo King’s College London. Tema da dissertação: International cooperation and health policy: An analysis on the design and implementation of the Mais Médicos Programme in Brazil).

Aqlguns grupos em redes sociais adoram propagar piadas contra gays, lésbicas, negros, etc. É  bom levarmos a sério o discurso contra as minorias.

A função das piadas, dos fake news sobre kits gays, contra quilombolas, contra MST, contra MTST, contra negros, contra as mulheres, é somente um, *comer o mingau pelas beiradas e chegar aos pobres*.

Todas as minorias serão chamadas terroristas e você irá acreditar. Assim você estará legitimando a ação do Estado e estas chamadas minorias serão combatidas e junto com elas os seus direitos e os direitos de todos nós.

P.ex. 48 milhões de usuários do SUS estarão sem médicos, em lugares pobres, distantes e onde os médicos brancos elitistas não irão.

Porquê? Porque antes enfiaram na cabeça do eleitor que Cuba é comunista, comunismo não presta e o programa mais médico seria fechado. Tá aí! Promessa feita, promessa cumprida.

Assista as entrevistas do vídeo acima e compreenda estas e outras questões importantes, inclusive sobre a visão que Bolsonaro expressa no Twitter abaixo.

 

 

 

 

 

 

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz expressa indignação pelas declarações de Bolsonaro que levam Cuba a se retirar do Programa Mais Médicos e sua gratidão ao povo revolucionário.

Médicos do “Mais Médicos” são recepcionados de volta à Cuba.

Mastigadinho pra explicar para os que não entendem o que é o socialismo:

Em Cuba, a medicina NÃO É uma profissão liberal. Não tem médico trabalhando por conta própria, não tem médico abrindo clínica, não tem médico em hospital particular. Todo hospital cubano é PÚBLICO, é DE GRAÇA, e TODOS os médicos cubanos são FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS.

Portanto, o Brasil não paga “salário” aos médicos cubanos. Não existe essa de “pagar salário integral” que o Bolsonaro diz. O Brasil paga uma MENSALIDADE à Organização Panamericana de Saúde, um órgão transnacional que media a permanência dos médicos cubanos aqui, pra que aqui eles sigam trabalhando. A OPAS recebe essa quantia do governo brasileiro, repassa para o Ministério da Saúde Pública de Cuba, do qual TODOS os médicos são funcionários, e daí uma parte desse monte vira imposto, e uma parte compõe o pagamento dos médicos.

“Ah mas são 11 mil reais e o médico ganha só 4”. Claro, porque NÃO é salário deles. Desses 11 mil reais, a maior parte é imposto, que volta pra Cuba pra bancar inclusive UNIVERSIDADE, formação de mais estudantes de medicina. Lá ninguém paga mensalidade, não existe faculdade Estácio de Sá em Cuba!

O Bolsonaro não tava tentando melhorar nada pros médicos (até porque ele caga solenemente pra eles), ele estava tentando aplicar a lógica de trabalho capitalista a um funcionário de um governo socialista. Fazer os médicos cubanos abandonarem o país que os formou, alimentou, ensinou, tudo DE GRAÇA, e ao qual eles servem, em troca de trabalhar aqui como funcionário brasileiro. É óbvio que isso não ia dar certo, é óbvio que não seria aceito, nem pelo governo nem pelos profissionais, que continuam não sendo empregados do Brasil, mas do ministério da saúde CUBANO.

Via Patricia

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“Vocês devem ter lido por aí que Cuba encerrou sua parceria com o Programa Mais Médicos, certo? Pois bem, essa afirmação, por si só, já é a criação de uma narrativa estabelecida pelo nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Cuba não acabou com sua participação no Mais Médicos. Jair Bolsonaro acabou com a participação cubana e agora quer fazer você acreditar que os cubanos o fizeram. Ele não quer ver a presidência dele manchada logo no começo pelos enormes prejuízos que isso vai trazer.

Vamos lá: o Mais Médicos é um programa criado pelos dois países. O que cada país ganha com essa ação?

– Cuba forma médicos de forma gratuita pelo seu sistema de educação e fornece essa mão de obra especializada para o Brasil. Qual é o retorno que o país recebe? 70% do salário dos profissionais, valor que deve ser reinvestido no sistema de bem-estar social da ilha (como saúde e educação pública gratuitos).

– O Brasil recebe mão de obra especializada para atuar em áreas isoladas e suprir a carência de médicos, além de se desamarrar de algumas limitações e problemas relacionados à contratação de funcionários públicos estatutários.

Bolsonaro é eleito depois de anos insultando Cuba. E quais são os termos que ele pede para a manutenção do programa? O Revalida é o de menos, vamos aos termos que importam:

– O salário integral deveria ser pago aos médicos;

– Os médicos poderiam trazer suas famílias para o Brasil.

Agora pergunto para vocês, o que acontece com o programa se Cuba aceita esses dois termos?

1 – Cuba cede mão de obra especializada de forma completamente gratuita para o Brasil;

2 – O sistema de bem-estar social de Cuba não recebe o reinvestimento para manter-se (afinal, saúde e educação gratuitos não se pagam com sorrisos);

3 – Caso as famílias venham para o Brasil e os médicos recebam o salário integralmente por aqui, todo esse dinheiro é utilizado na economia brasileira.

Você percebe a pegada? Não há nenhuma vantagem para Cuba. A não ser que se tratasse de uma missão humanitária – o que não é o caso, tendo em vista que Cuba é um país bem mais pobre do que o Brasil – esse programa não faria sentido nenhum para eles sob esses termos.

Bolsonaro então oferece esses termos – inaceitáveis e completamente descabidos – e Cuba obviamente os recusa e sai do programa. E qual é a manchete dos jornais?

“Cuba abandona o Mais Médicos”.

Qual deveria ser uma manchete mais apropriada?

“Bolsonaro oferece acordo sem contrapartidas para Cuba e país abandona o Mais Médicos”.

Imagina uma narrativa onde você se recusa a trabalhar de graça para alguém e os jornais publicam que você “abandonou o emprego”? É basicamente o que estão fazendo agora. E os minions, impulsionados pelas redes de desinformação do candidato, já estão obviamente colocando a culpa do caos no governo cubano.

O que vocês viram agora foi o Bolsonaro prejudicar a vida de milhões de brasileiros a troco de nada. Ou melhor, a troco de um factoide político.

Os médicos cubanos estão em 2.885 municípios brasileiros. Centenas deles atuam em aldeais indígenas. Quase 150 municípios brasileiros sequer tinham médicos contratados e só receberam essa mão de obra especializada graças ao Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos não era um programa de caridade. Era um acordo entre dois países que, apesar de não ser perfeito, trazia uma série de benefícios aos dois. Foi demonizado de maneira completamente irracional e agora extinto pela falta de bom senso do Bolsonaro.

E vocês acreditam que foi Cuba que decidiu meter o pé.”

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